Culpa das estrelas?
Quando nasce a mulher, nasce junto, embutida no seu corpo, na sua alma: a culpa. Fica ali guardada e a cada acontecimento de sua maturidade, vai aparecendo.
Sou filha de pais separados. Meus pais se separaram quando
eu ainda era bem pequena, entre seis e sete anos de idade. Pensar nisso me traz
recordações tristes. Não tenho lembranças muito claras, apenas flashes. Lembro
que fomos felizes, mas não consigo lembrar de nenhum momento, nenhuma situação
em que estávamos os três juntos, não sei porque. Se não fossem as muitas
fotografias que minha mãe sempre guardou, seria difícil acreditar.
Eu era uma criança e participei dos problemas dos adultos,
não fui poupada de nada, foi pesado. Acho que o esquecimento e a tristeza se
devem a isso.
Mas hoje, mais de vinte anos depois, apesar da lembrança
infeliz, está tudo muito bem resolvido pra mim, tenho uma família grande e
maravilhosa, o que inclui uma segunda mãe e uma meia irmã que amo mais do que
se fosse irmã inteira. Portanto, a pauta deste capitulo não é bem essa.
O que ocorre é que, quando comecei a passar por situações
adultas, comecei a vivenciar o sentimento de culpa. Estar no meio daquela
situação, por si só já me fazia me sentir culpada por alguma coisa, que eu nem
sabia o que era. Às vezes eu sentia que meus pais tinham mais trabalho em lidar
com tudo aquilo, devido à minha simples existência. Como se eu fosse uma mala
pesada, cheia de coisas importantes que não podem ser descartadas, então tem
que ser carregada pra lá e pra cá, durante todas as escalas e conexões de uma
longa e cansativa viagem.
Depois dessa veio a culpa de ter que me dividir. Se eu
estava com minha mãe, pensava que meu pai estaria triste pela minha ausência e
o contrário também ocorria. Apesar que sempre me senti mais culpada pelo meu
pai, até hoje, não sei por que. Eu sempre achava que estava incomodando em
algo, sempre queria agradar, sempre sentia que devia pedir desculpas por alguma
coisa. Acho que isso deve ter a ver com o Complexo de Édipo, certeza!
Depois que comecei a namorar, veio outra culpa. Estar com os
amigos e deixar o namorado, estar com o namorado e deixar os amigos e a
família. Pra mim sempre foi difícil fazer este tipo de escolha e ficar bem com
ela.
Por fim, a culpa pelos fracassos dos meus relacionamentos. Isso
inclui também as amizades. Aquelas amizades que se rompem e as pessoas
simplesmente deixam de ser amigas, nunca soube lidar com isso. Sempre me sinto
responsável por tudo e levo um tempo pra entender que simplesmente acaba, não
tenho culpa pelo fim, nem pelo sofrimento da outra pessoa. Ou tenho?
O que tento hoje é resolver minhas culpas passadas, deixar
minha mente limpa, evitar me cobrar tanto, porque sei que muitas culpas ainda
me esperam depois dos 30. Acho que sou mesmo uma virginiana chata e louca e
balzaquiana e cheia de conflitos.

